terça-feira, 25 de março de 2025

Breve reflexão filosófica - Nuno Júdice

Breve reflexão filosófica 

Queria encontrar uma palavra, entre a saudade

e o absoluto, que me permitisse pensar sobre a vida, 

isto é, sobre alguma coisa. Pôr-me-ia no lugar do filósofo 

e começaria por dizer que, se a vida 

é alguma coisa, será no absoluto desse algo quе

 algo surgirá para iluminar o pensamento. Porém, 

s distrações da vida começam a impor-se 

entre mim e esse pensamento que procuro. Canso-me 

de não saber mais do que aquilo que faz parte 

deste mundo que me rodeia: o mundo 

por onde passa um rio que não vejo e as únicas árvores 

são essas que ainda crescem ao longo das avenidas, 

sob o fumo do passado que esconde a névoa 

do futuro. Podia pegar num caderno de apontamentos 

e percorrer as folhas em branco: aí, nesse vazio de palavras,

a palavra essencial é o nada que a preenche 

da primeira à última. Então, começo a escrever 

como se isso me ajudasse a encontrar um sentido; 

e acabo com a saudade do caderno vazio 

perante o absoluto das palavras que o enchem. 


Nuno Júdice, 

in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, 

Guerra e Paz


Atividades: 

Reflexão sobre as questões existenciais referidas no poema. 

Debate sobre a forma que o poeta encontra para dar sentido à vida e quais os resultados alcançados.

Formulação de diferentes conselhos possíveis para o poeta: no sentido de aceitar, de resolver, de negar o sentido da vida. 


Tópicos de discussão: 

Que outras grandes questões da humanidade é habitual encontrar na poesia? Porquê? 

Como podem as palavras representar o absoluto e o nada? 

Como espécie, recorremos às palavras para explicar a vida. Que sucesso tem esta empreitada humana?

segunda-feira, 24 de março de 2025

Entre muitos - Wislawa Szymborska


Entre muitos
Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.
Poderia não me ser dada
a lembrança dos bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesma — mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

Wislawa Szymborska

sábado, 15 de março de 2025

Cantiga de Maldizer - Miguel Torga


Esta menina que eu sei
É como a rosa dos ventos:
Ora grita aqui-del-Rei,
Se alguém a vem namorar,
Ora maldiz os conventos
Onde o pai a quer guardar.

É um riso agradecido
E um pranto de se acabar.

Parece um fruto maduro,
Do outro lado do muro,
Com medo de ser comido
E medo de ali ficar.

MIGUEL TORGA
(12-9-1946)

Espera - Miguel Torga

E a expedição partiu.

Partiu, e o coração da mãe parou.

E parado de angústia assim viveu

Enquanto a caravela não voltou.

sábado, 24 de agosto de 2024

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Ingrina - Sophia de Mello Breyner

 

Ingrina

O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia — e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.

quinta-feira, 14 de março de 2024

Perdoa-me - Filipa Leal

 Perdoa-me se continuo a fazer

pouca ginástica, se continuo a fazer

coisas como poemas de amor.


Enquanto tu, de mãos no volante,

continuas a entrar na minha rua

em sentido contrário.