Breve reflexão filosófica
Queria encontrar uma palavra, entre a saudade
e o absoluto, que me permitisse pensar sobre a vida,
isto é, sobre alguma coisa. Pôr-me-ia no lugar do filósofo
e começaria por dizer que, se a vida
é alguma coisa, será no absoluto desse algo quе
algo surgirá para iluminar o pensamento. Porém,
s distrações da vida começam a impor-se
entre mim e esse pensamento que procuro. Canso-me
de não saber mais do que aquilo que faz parte
deste mundo que me rodeia: o mundo
por onde passa um rio que não vejo e as únicas árvores
são essas que ainda crescem ao longo das avenidas,
sob o fumo do passado que esconde a névoa
do futuro. Podia pegar num caderno de apontamentos
e percorrer as folhas em branco: aí, nesse vazio de palavras,
a palavra essencial é o nada que a preenche
da primeira à última. Então, começo a escrever
como se isso me ajudasse a encontrar um sentido;
e acabo com a saudade do caderno vazio
perante o absoluto das palavras que o enchem.
Nuno Júdice,
in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço,
Guerra e Paz
Atividades:
Reflexão sobre as questões existenciais referidas no poema.
Debate sobre a forma que o poeta encontra para dar sentido à vida e quais os resultados alcançados.
Formulação de diferentes conselhos possíveis para o poeta: no sentido de aceitar, de resolver, de negar o sentido da vida.
Tópicos de discussão:
Que outras grandes questões da humanidade é habitual encontrar na poesia? Porquê?
Como podem as palavras representar o absoluto e o nada?
Como espécie, recorremos às palavras para explicar a vida. Que sucesso tem esta empreitada humana?