quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Instruções para atravessar o deserto - Juan Vicente Piqueras

 


𝑰𝒏𝒔𝒕𝒓𝒖𝒄̧𝒐̃𝒆𝒔 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒂𝒕𝒓𝒂𝒗𝒆𝒔𝒔𝒂𝒓 𝒐 𝒅𝒆𝒔𝒆𝒓𝒕𝒐


Para atravessar este íntimo deserto

é preciso coragem, tempo, vontade

de não perder a vida preparando

uma viagem que jamais faremos,

um camelo leal, um companheiro

igual, um mapa vão,

um turbante, uma bússola,

dez caixas de bombons (souvenir do Ocidente)

e uma chilaba azul… Que mais? Um livro

que faça as vezes de Corão, de Bíblia,

de Torá e Tao e tenha

as páginas em branco ou esteja escrito

numa língua que ninguém compreenda.


Faz falta uma certa confiança na sede.

um olhar límpido, e um caderno

de notas, que os dias

são compridos, lentos, e as noites tristes,

e não há tenda nem tribo

nem deus que ajudem em tanta solidão.

Para atravessar este íntimo deserto

faz falta querer, ter que, decidir

começar a andar e não olhar para trás,

não recuar, não ter outro remédio.

Sai de ti - Juan Vicente Piqueras


 𝑺𝒂𝒊 𝒅𝒆 𝒕𝒊

(ou colecção de imperativos primavera-verão para o outono do teu desconcerto)


Não fujas do que sentes. Não te escondas

no que dizes. Não digas mentiras.

Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Não sofras por medo de sofrer mais.

Não mendigues jamais o que mereces.

Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.

Funda no fogo firme da sua fogueira

o teu lar, o teu ofício. E agradece ao ar

que entre e saia de ti. Sê a janela

do que vive. Olha com cuidado.

Há olhares que podem envenenar o mundo. 

Não deixes que apodreça o que sentes

Dentro de ti. Faz exame de consciência

de vez em quando mas nunca esqueças

que é possível que sejas inocente.

Abre o teu coração couraçado

à união do céu com o mar,

da luz com a sombra,

do canto dos grilos com o das cigarras.

Pinta de azul a alma. Troca

o que foste pelo que não serás.

Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.

Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.

Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.

As dos pés também, no mar, em marcha.

Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,

as tuas pegadas de amanhã, esperam-te, chamam por ti.

Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua

de sal. E sai de ti, do que pensas

de ti. Sai desse quarto

escuro onde escreves os poemas

que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.

Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Vira a página. Vê. Olha. Sê atento

e fica atento. Não esqueças o que vives.

Não esqueças o que acabas de viver.

Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai

em busca de uma voz nova, longínqua.

Não fujas do que sentes. Não permitas

que a vida se perca no vazio,

que a morte ao chegar encontre

já feito o seu trabalho. Olha o céu

como quem diz adeus,

como quem agradece.


Em “Instruções para Atravessar o Deserto”, poemas escolhidos de Juan Vicente Piqueras.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz

Estava com vontade de te dar alguma coisa, 

uma coisa especial, 

disse eu à Inês, 

mas, ao contrário do meu vizinho,

não tenho piscina para nadarmos juntos no verão, ~

por isso, limito-me a oferecer-te 

um pássaro a voar ao fim da tarde. 


Ali. 


Olha.


Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz, 

in Os pássaros (dos poemas voam mais alto)


Amor / Matilde Rosa Araújo

 


Volto para casa / Diego Valverde Villena

 Volto para casa / Diego Valverde Villena, trad. Jorge Sousa Braga



manuel antónio pina / primeiro domingo


A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num temo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

23/4/99


manuel antónio pina
nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

visita ao doente - Alberto Pimenta

vou visitar o doente ao hospital. subo a escada 

e conto os degraus. setenta e três. da janela da 

ante câmara vê-se um jardim com dois amorinhos 

afasto a cortina de repes e digo tété. ele está 

a comer uma tacinha com compota de agriotas. eu 

abano com a cabeça e faço cucu cucu e começo a 

desembrulhar o meu presente esforçando-me por 

não fuchicar muito com o papel. uma tigelinha 

de chá de arruda. preferia uma latinha de popu 

leão diz ele. sento-me guardando o maior silên

cio possível. ouve-se a micção do doente. fica d 

e novo silêncio. sabes que o jardim está cheio 

de meimendros e beladonas diz o doente. sim di 

go eu e catarinetas. faz-se novo silêncio. que é 

que diz o rádio pergunta o doente. que o tempo 

vai aborrascado-se e o mundo anda cheio de dis 

senções. novo silêncio. conheces algum jogo que 

eu possa jogar pergunta o doente. a franca tri 

pa digo eu. esse é muito excitante diz o doente

. então o pé coxinho. que loucura que loucura m 

eu deus diz ele. então conta as moscas que and 

am a voar aqui por cima. novo silêncio. não pos 

so diz o doente. porquê pergunto eu. porque voam 

tão depressa que uma parece duas e duas parec 

em uma e muitas parecem poucas e poucas parec 

em muitas e sete seriam muitas se parecessem m 

uitas e quinze seriam poucas se parecessem pou 

cas. ffilhas das putas das moscas digo eu.