terça-feira, 26 de maio de 2026

Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz

Estava com vontade de te dar alguma coisa, 

uma coisa especial, 

disse eu à Inês, 

mas, ao contrário do meu vizinho,

não tenho piscina para nadarmos juntos no verão, ~

por isso, limito-me a oferecer-te 

um pássaro a voar ao fim da tarde. 


Ali. 


Olha.


Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz, 

in Os pássaros (dos poemas voam mais alto)


Amor / Matilde Rosa Araújo

 


Volto para casa / Diego Valverde Villena

 Volto para casa / Diego Valverde Villena, trad. Jorge Sousa Braga



manuel antónio pina / primeiro domingo


A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num temo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

23/4/99


manuel antónio pina
nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

visita ao doente - Alberto Pimenta

vou visitar o doente ao hospital. subo a escada 

e conto os degraus. setenta e três. da janela da 

ante câmara vê-se um jardim com dois amorinhos 

afasto a cortina de repes e digo tété. ele está 

a comer uma tacinha com compota de agriotas. eu 

abano com a cabeça e faço cucu cucu e começo a 

desembrulhar o meu presente esforçando-me por 

não fuchicar muito com o papel. uma tigelinha 

de chá de arruda. preferia uma latinha de popu 

leão diz ele. sento-me guardando o maior silên

cio possível. ouve-se a micção do doente. fica d 

e novo silêncio. sabes que o jardim está cheio 

de meimendros e beladonas diz o doente. sim di 

go eu e catarinetas. faz-se novo silêncio. que é 

que diz o rádio pergunta o doente. que o tempo 

vai aborrascado-se e o mundo anda cheio de dis 

senções. novo silêncio. conheces algum jogo que 

eu possa jogar pergunta o doente. a franca tri 

pa digo eu. esse é muito excitante diz o doente

. então o pé coxinho. que loucura que loucura m 

eu deus diz ele. então conta as moscas que and 

am a voar aqui por cima. novo silêncio. não pos 

so diz o doente. porquê pergunto eu. porque voam 

tão depressa que uma parece duas e duas parec 

em uma e muitas parecem poucas e poucas parec 

em muitas e sete seriam muitas se parecessem m 

uitas e quinze seriam poucas se parecessem pou 

cas. ffilhas das putas das moscas digo eu.

sábado, 24 de maio de 2025

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões - José Miguel Silva

 Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.

Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo pra te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.


José Miguel Silva


[Luz & sombra]

Chamada geral - Mário Henrique Leiria

 

Chamada Geral

"Avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade

delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se
a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo
ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS."

Mário Henrique Leiria