quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Conversa (Causerie) - Charles Baudelaire

 Conversa (Causerie) - Charles Baudelaire


És um belo céu de outono, claro e rosa!

Mas a tristeza em mim sobe como o mar,

E deixa, ao recuar, sobre os meus lábios amargurado

A lembrança ardente do meu limo amargo.


— A tua mão desliza em vão pelo meu peito que desfalece;

O que ela procura, amiga, é um lugar devastado

Pela garra e pelo dente feroz da mulher.

Não procures mais o meu coração; as feras comeram-no.


O meu coração é um palácio murcho pela multidão;

Lá embebedam-se, matam-se, agarram-se pelos cabelos!

— Um perfume flutua ao redor da tua garganta nua!...


Ó Beleza, duro flagelo das almas, tu assim o queres!

Com os teus olhos de fogo, brilhantes como festas,

Queima estes farrapos que os animais pouparam!



Causerie

Vous êtes un beau ciel d'automne, clair et rose!
Mais la tristesse en moi monte comme la mer,
Et laisse, en refluant, sur ma lèvre morose
Le souvenir cuisant de son limon amer.


— Ta main se glisse en vain sur mon sein qui se pâme;
Ce qu'elle cherche, amie, est un lieu saccagé
Par la griffe et la dent féroce de la femme.
Ne cherchez plus mon coeur; les bêtes l'ont mangé.


Mon coeur est un palais flétri par la cohue;
On s'y soûle, on s'y tue, on s'y prend aux cheveux!
— Un parfum nage autour de votre gorge nue!...


Ô Beauté, dur fléau des âmes, tu le veux!
Avec tes yeux de feu, brillants comme des fêtes,
Calcine ces lambeaux qu'ont épargnés les bêtes!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Instruções para atravessar o deserto - Juan Vicente Piqueras

 


𝑰𝒏𝒔𝒕𝒓𝒖𝒄̧𝒐̃𝒆𝒔 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒂𝒕𝒓𝒂𝒗𝒆𝒔𝒔𝒂𝒓 𝒐 𝒅𝒆𝒔𝒆𝒓𝒕𝒐


Para atravessar este íntimo deserto

é preciso coragem, tempo, vontade

de não perder a vida preparando

uma viagem que jamais faremos,

um camelo leal, um companheiro

igual, um mapa vão,

um turbante, uma bússola,

dez caixas de bombons (souvenir do Ocidente)

e uma chilaba azul… Que mais? Um livro

que faça as vezes de Corão, de Bíblia,

de Torá e Tao e tenha

as páginas em branco ou esteja escrito

numa língua que ninguém compreenda.


Faz falta uma certa confiança na sede.

um olhar límpido, e um caderno

de notas, que os dias

são compridos, lentos, e as noites tristes,

e não há tenda nem tribo

nem deus que ajudem em tanta solidão.

Para atravessar este íntimo deserto

faz falta querer, ter que, decidir

começar a andar e não olhar para trás,

não recuar, não ter outro remédio.

Sai de ti - Juan Vicente Piqueras


 𝑺𝒂𝒊 𝒅𝒆 𝒕𝒊

(ou colecção de imperativos primavera-verão para o outono do teu desconcerto)


Não fujas do que sentes. Não te escondas

no que dizes. Não digas mentiras.

Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Não sofras por medo de sofrer mais.

Não mendigues jamais o que mereces.

Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.

Funda no fogo firme da sua fogueira

o teu lar, o teu ofício. E agradece ao ar

que entre e saia de ti. Sê a janela

do que vive. Olha com cuidado.

Há olhares que podem envenenar o mundo. 

Não deixes que apodreça o que sentes

Dentro de ti. Faz exame de consciência

de vez em quando mas nunca esqueças

que é possível que sejas inocente.

Abre o teu coração couraçado

à união do céu com o mar,

da luz com a sombra,

do canto dos grilos com o das cigarras.

Pinta de azul a alma. Troca

o que foste pelo que não serás.

Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.

Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.

Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.

As dos pés também, no mar, em marcha.

Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,

as tuas pegadas de amanhã, esperam-te, chamam por ti.

Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua

de sal. E sai de ti, do que pensas

de ti. Sai desse quarto

escuro onde escreves os poemas

que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.

Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Vira a página. Vê. Olha. Sê atento

e fica atento. Não esqueças o que vives.

Não esqueças o que acabas de viver.

Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai

em busca de uma voz nova, longínqua.

Não fujas do que sentes. Não permitas

que a vida se perca no vazio,

que a morte ao chegar encontre

já feito o seu trabalho. Olha o céu

como quem diz adeus,

como quem agradece.


Em “Instruções para Atravessar o Deserto”, poemas escolhidos de Juan Vicente Piqueras.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz

Estava com vontade de te dar alguma coisa, 

uma coisa especial, 

disse eu à Inês, 

mas, ao contrário do meu vizinho,

não tenho piscina para nadarmos juntos no verão, ~

por isso, limito-me a oferecer-te 

um pássaro a voar ao fim da tarde. 


Ali. 


Olha.


Estava com vontade de te dar alguma coisa / Afonso Cruz, 

in Os pássaros (dos poemas voam mais alto)


Amor / Matilde Rosa Araújo

 


Volto para casa / Diego Valverde Villena

 Volto para casa / Diego Valverde Villena, trad. Jorge Sousa Braga



manuel antónio pina / primeiro domingo


A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num temo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

23/4/99


manuel antónio pina
nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012