quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

visita ao doente - Alberto Pimenta

vou visitar o doente ao hospital. subo a escada 

e conto os degraus. setenta e três. da janela da 

ante câmara vê-se um jardim com dois amorinhos 

afasto a cortina de repes e digo tété. ele está 

a comer uma tacinha com compota de agriotas. eu 

abano com a cabeça e faço cucu cucu e começo a 

desembrulhar o meu presente esforçando-me por 

não fuchicar muito com o papel. uma tigelinha 

de chá de arruda. preferia uma latinha de popu 

leão diz ele. sento-me guardando o maior silên

cio possível. ouve-se a micção do doente. fica d 

e novo silêncio. sabes que o jardim está cheio 

de meimendros e beladonas diz o doente. sim di 

go eu e catarinetas. faz-se novo silêncio. que é 

que diz o rádio pergunta o doente. que o tempo 

vai aborrascado-se e o mundo anda cheio de dis 

senções. novo silêncio. conheces algum jogo que 

eu possa jogar pergunta o doente. a franca tri 

pa digo eu. esse é muito excitante diz o doente

. então o pé coxinho. que loucura que loucura m 

eu deus diz ele. então conta as moscas que and 

am a voar aqui por cima. novo silêncio. não pos 

so diz o doente. porquê pergunto eu. porque voam 

tão depressa que uma parece duas e duas parec 

em uma e muitas parecem poucas e poucas parec 

em muitas e sete seriam muitas se parecessem m 

uitas e quinze seriam poucas se parecessem pou 

cas. ffilhas das putas das moscas digo eu.