terça-feira, 12 de outubro de 2021

Regras para viver em campo de Ourique - Assis Pacheco

Regras para viver em Campo de Ourique

 

1. Pratica a arte da boa vizinhança; estás numa terra pequena, não sejas opaco.

2. Dá o máximo de ti, pede aos outros o máximo. A escassez não vale uma vida.

3. O alheamento não vale uma vida.

4. Faz-te conhecer pelos gestos de todos os dias; mesmo os gestos neutros; mesmo os inúteis.

5. Não deixes de contrastar os homens sobre as pedras.

6. Saboreia os teus trajetos com uma paixão minuciosa.

7. Mas reserva-te para a surpresa e para o imprevisto (como no trabalho).

8. Vive direito. Vive claro. Evita enganar-te neste ponto.

9. Aceita os outros, que são sempre diversos.

10. Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória.

Em todo o caso não a forces.

 

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular


Eis-me no centro do assombro - Carlos de Oliveira

 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Algarve - Miguel Torga

 ALGARVE


O mistério do mar,

O milagre do sol

E a graça da paisagem

Na moldura dos olhos.

E a paz feliz de que tenho o que é meu.

Ah, terra bem-amada!

Bênção da natureza

Caiada

De pureza

E nimbada

De saudade.

Algarve. Liberdade

Dos sentidos.

Férias ao sul

Da imaginação.

Ainda a mesma nação,

Mas com outros sinais.

E a memória também

De que todo o além

Começa neste cais.


Diário XIV

Fotografia: Ria Formosa - Algarve

sexta-feira, 16 de julho de 2021

terça-feira, 15 de junho de 2021

O meu amor não cabe num poema - Maria do Rosário Pedreira

 O meu amor não cabe num poema — há coisas assim,

que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.


O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto —

a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.


O meu amor não se deixa dizer — é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios

de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.


O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome — é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.


Maria Do Rosário Pedreira, In “Poesia Reunida”

Foto: AC

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Esplanada - António Manuel Pina

 

ESPLANADA


Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.