Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
O evento estético é algo tão evidente, tão imediato, tão indefinível como o amor, o sabor da fruta, da água.
sábado, 6 de janeiro de 2018
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Há nas pétalas das flores uma qualidade táctil - Miguel Martins
Há nas pétalas das flores uma qualidade táctil transcendente, uma daquelas sensações sublimadas que requerem silêncio e solidão
e nos impregnam de uma tristeza boa, de uma tristeza que vale a pena
porque nos ensina a viver alheados do corso em que a vida se tornou
e a morrer indiferentes à absurda possibilidade de qualquer fim.
In O Caçador Esquimó, de Miguel Martins
e nos impregnam de uma tristeza boa, de uma tristeza que vale a pena
porque nos ensina a viver alheados do corso em que a vida se tornou
e a morrer indiferentes à absurda possibilidade de qualquer fim.
In O Caçador Esquimó, de Miguel Martins
Mesmo quando fingia incendiar paixões - Miguel Martins
Mesmo quando fingia incendiar paixões, pensava já no exílio,
na espreguiçadeira com que havia de contemplar o Bósforo ou a raia.
In Pince-Nez, de Miguel Martins
na espreguiçadeira com que havia de contemplar o Bósforo ou a raia.
In Pince-Nez, de Miguel Martins
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
El poeta pide a su amor que le escriba - Federico G. Lorca
Federico.
El poeta pide a su amor que le escriba
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es inmortal, la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena noche
del alma para siempre oscura.
🍒🍒
E depois havia esta beleza de Federico.
El poeta pide a su amor que le escriba
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es inmortal, la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena noche
del alma para siempre oscura.
🍒🍒
E depois havia esta beleza de Federico.
sábado, 10 de junho de 2017
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
O que é real é aquela primeira vez que estive no teu apartamento, fui à casa de banho para lavar as mãos, vi ali a tua esponja e senti intensamente que ela tocava no teu seio.
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Schubertiana - Tomas Tranströmer
SCHUBERTIANA
I
Ao anoitecer, num lugar dos arredores de Nova Iorque, um miradoiro do qual com um só olhar é possível avistar as casas de oito milhões de pessoas.
De longe, vista assim de lado, a megacidade é um cintilante montão de edifícios, uma galáxia em espiral.
Dentro dela põem-se cafés nos balcões, montras mendigam a transeuntes, miríades de pares de sapatos não deixam o menor rasto.
Íngremes escadas de salvação, ascensores em permanente função, atrás de portas com fechaduras de alta segurança, um marulhar constante de vozes.
Corpos prostrados meio adormecidos nas carruagens do metro, essas catacumbas itinerantes.
Também sei - sem base em dados - que neste mesmo instante se toca Schubert, algures num quarto ao longe, e que para alguém essas notas são mais reais do que qualquer outra coisa.
Bilhete-Postal Negro - Tomas Tranströmer
Tomas Tranströmer, BILHETE -POSTAL NEGRO
I
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
é cosido em silêncio.
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
é cosido em silêncio.
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