Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
. Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
. Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
. E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.
O evento estético é algo tão evidente, tão imediato, tão indefinível como o amor, o sabor da fruta, da água.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
Nevoeiro, Carlos de Oliveira
A cidade caía
casa a casa
do céu sobre sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.
carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998
Floriram por engano as rosas bravas, Camilo Pessanha
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Há nas pétalas das flores uma qualidade táctil - Miguel Martins
Há nas pétalas das flores uma qualidade táctil transcendente, uma daquelas sensações sublimadas que requerem silêncio e solidão
e nos impregnam de uma tristeza boa, de uma tristeza que vale a pena
porque nos ensina a viver alheados do corso em que a vida se tornou
e a morrer indiferentes à absurda possibilidade de qualquer fim.
In O Caçador Esquimó, de Miguel Martins
e nos impregnam de uma tristeza boa, de uma tristeza que vale a pena
porque nos ensina a viver alheados do corso em que a vida se tornou
e a morrer indiferentes à absurda possibilidade de qualquer fim.
In O Caçador Esquimó, de Miguel Martins
Mesmo quando fingia incendiar paixões - Miguel Martins
Mesmo quando fingia incendiar paixões, pensava já no exílio,
na espreguiçadeira com que havia de contemplar o Bósforo ou a raia.
In Pince-Nez, de Miguel Martins
na espreguiçadeira com que havia de contemplar o Bósforo ou a raia.
In Pince-Nez, de Miguel Martins
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
El poeta pide a su amor que le escriba - Federico G. Lorca
Federico.
El poeta pide a su amor que le escriba
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es inmortal, la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena noche
del alma para siempre oscura.
🍒🍒
E depois havia esta beleza de Federico.
El poeta pide a su amor que le escriba
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es inmortal, la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena noche
del alma para siempre oscura.
🍒🍒
E depois havia esta beleza de Federico.
sábado, 10 de junho de 2017
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
O que é real é aquela primeira vez que estive no teu apartamento, fui à casa de banho para lavar as mãos, vi ali a tua esponja e senti intensamente que ela tocava no teu seio.
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
Cartas de Amor e de Guerra, Mikhail Chichkin
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