O evento estético é algo tão evidente, tão imediato, tão indefinível como o amor, o sabor da fruta, da água.
sábado, 24 de fevereiro de 2024
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024
Instruções para viver uma vida - Mary Oliver
Instruções para viver uma vida:
Presta atenção.
Espanta-te.
Fala disso.
Mary Oliver, in PÁSSARO VERMELHO
terça-feira, 20 de fevereiro de 2024
As aves - Rui Caeiro
As Aves
Ao contrário dos humanos, que raramente voam, elas deleitam-se no voo, mas ainda ao contrário dos humanos, é muito raro que o façam na direção de uma gaiola.
Rui Caeiro, Deus e outros animais, Averno
quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Porque te amo - Pablo Neruda
POR QUE TE AMO
https://youtu.be/Mg2NZFORGsg?si=eHwQH_CODN-Ir4Va
Te amo
te amo de uma maneira inexplicável
de uma forma inconfessável
de um modo contraditório
Te amo
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo
a vida
a morte
Te amo
Te amo, com o mundo que não entendo
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos fatos
ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor.
Te amo
Te amo, sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena
Te amo
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo
Te amo
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei por que te amo
Noite na ilha - Pablo Neruda
Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
Materia nupcial - Pablo Neruda
De pie como un cerezo sin cáscara ni flores,
especial, encendido, con venas y saliva,
y dedos y testículos,
miro una niña de papel y luna,
horizontal, temblando y respirando y blanca
y sus pezones como dos cifras separadas,
y la rosal reunión de sus piernas en donde
su sexo de pestañas nocturnas parpadea.
Pálido, desbordante,
siento hundirse palabras en mi boca,
palabras como niños ahogados,
y rumbo y rumbo y dientes crecen naves,
y aguas y latitud como quemadas.
La pondré como una espada o un espejo,
y abriré hasta la muerte sus piernas temerosas,
y morderé sus orejas y sus venas,
y haré que retroceda con los ojos cerrados
en un espeso río de semen verde.
La inundaré de amapolas y relámpagos,
la envolveré en rodillas, en labios, en agujas,
la entraré con pulgadas de epidermis llorando
y presiones de crimen y pelos empapados.
La haré huir escapándose por uñas y suspiros,
hacia nunca, hacia nada,
trepándose a la lenta médula y al oxígeno,
agarrándose a recuerdos y razones
como una sola mano, como un dedo partido
agitando una uña de sal desamparada.
Debe correr durmiendo por caminos de piel
en un país de goma cenicienta y ceniza,
luchando con cuchillos, y sábanas, y hormigas,
y con ojos que caen en ella como muertos,
y con gotas de negra materia resbalando
como pescados ciegos o balas de agua gruesa.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2023
Num bar de praia - Miguel Serras Pereira
De Miguel Serras Pereira, tradutor, ensaísta e poeta que no próximo dia 16, sábado, a partir das 15h, estará connosco no colóquio Teatro, Espaço Vazio e Democracia, subordinado ao tema “Presencial versus Virtual: o caos do Sentido”, este poema com envio para a Foz do Arelho:
NUM BAR DE PRAIA
FORA DA ESTAÇÃO
(Foz do Arelho, anos 90)
*
Si je vous le disais pourtant, que je vous aime…
Alfred de Musset
*
Talvez não fosse só porque um dia morreríamos
apesar de por vezes o lembrarmos
como teríamos de admitir não tardaria
à cautela velando embora
de uma nota de melancólica ironia
a voz ao confessá-lo
mas a verdade é que de súbito voltavam
como que desde sempre à nossa espera
após mais uma noite em branco a bordo
do ventre da baleia
vinte ou vinte e cinco anos
de amor febril regado desde a véspera
de Stout copiosamente intervalada
por breves tragos de genebra velha
E os dois ali estávamos à mesa
de um bar de praia fora de estação
onde se bem que tendo finalmente
voltado a ver-nos sem sabermos
se era o prelúdio ou a coda o que tocávamos
já tanto me arrasara o tanto atraso
que não me resolvia a pegar na tua mão
e dizia-me depois por um momento
que bem vistas as coisas não seria
inteiramente absurdo
pescar um pouco em águas turvas
e ensaiar uma breve digressão
sobre o voo das aves da lagoa
ou do eco outrora no seu grito
do estertor surdo na memória
talvez de deus nas vascas da agonia
Entretanto tu vias já as horas no relógio
porque ouviras de súbito na estrada
ranger os pneus de um automóvel
como nós daí a pouco
intempestivamente de partida
e falhava-me a voz só de imaginar
o que a seguir viria
se não fiado somente no acaso
mas antes sob o hipnótico efeito fulgurante
de um verso de musset
menos mal adequado à circunstância
me ouvisses sem mais como nem porquê
perguntar-te afinal como seria
se todavia eu to dissesse, que te amava
Assim adiei o dar-te a conhecer
para outra e mais segura ocasião
a tradução do verso bem amado
resignado a emendar a mão
e a mudar o caminho da conversa
hesitando suspenso
do ondular do teu olhar incandescente
que de tão vago ao mesmo tempo
não sei se me incitava ou me tolhia
enquanto me escutavas
ou tranquilamente respondias
e só o teu sorriso me provava
entre duas frases quase distraídas
que não te surpreendia afinal demasiado
veres como bem vias que nos pratos
ainda intacto o almoço arrefecia
Mas não vias nem eu que já ali ficara
definitivamente indecisa a minha vida
Miguel Serras Pereira, in “À Tona do Vazio & Reprise – Cinquenta anos de poesia de Miguel Serras Pereira, 1969-2019”, com prefácio da 1.ª edição por Emanuel Cameira, prefácio da 2.ª edição por Ricardo Marques, Barricada de Livros, 2.ª edição, 2022, pp. 45-48.
