Sobre a perfeição dos textos:
"Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estheticas será a de aquillo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem ha poente tam bello que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê somno que não pudesse dar-nos um somno mais calmo ainda. E assim, contempladores eguaes das montanhas e das estatuas, gosando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa intima substancia, faremos tambem descripções e analyses, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gosar como se viessem na tarde."
Bernardo Soares, Livro do Desassossego.
O evento estético é algo tão evidente, tão imediato, tão indefinível como o amor, o sabor da fruta, da água.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Poema sobre o começo do poema de J. C. de Melo Neto chamado Poema - Jorge de Sena
A tinta e a lápis
escrevem-se / são escritos
todos os versos do mundo / quase todos os versos do mundo
À máquina
escrevem-se / são escritos
alguns dos versos do mundo
Com sangue (diz-se)
escrevem-se / são escritos
uns pouquíssimos
E consta que já outros foram escritos
com outros materiais excretos.
escrevem-se / são escritos
todos os versos do mundo / quase todos os versos do mundo
À máquina
escrevem-se / são escritos
alguns dos versos do mundo
Com sangue (diz-se)
escrevem-se / são escritos
uns pouquíssimos
E consta que já outros foram escritos
com outros materiais excretos.
Inocência - Jorge de Sena
No pórtico da casa, entre os lilases, o par de namorados brincava de apertar-se as mãos e de contar os dedos. Havia sempre um dedo a mais.
terça-feira, 9 de junho de 2015
Quem me quiser
Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
– Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
Rosa Lobato de Faria
terça-feira, 24 de março de 2015
Este amor pelas coisas quotidianas
Este amor pelas coisas quotidianas,
Em parte intrínseco ao grande olhar da infância,
Em parte um cálculo literário,
Estaremos apenas a evitar o nosso único e verdadeiro destino
Quando fazemos isso, desviando o nosso olhar
De Philip Larkin que espera por nós com um casaco de coveiro?
Os ramos despidos contra o céu
Não vão salvar salvar ninguém do vazio que os envolve,
nem o açucareiro ou a colher de açúcar em cima da mesa.
Então para quê preocuparmo-nos com o farol axadrezado?
Para quê perder tempo com o pardal,
Ou as flores selvagens ao longo da estrada
Quando todos devíamos estar sozinhos nos nossos quartos
A atirarmo-nos contra a parede da vida
E a parede oposta da morte,
Com a porta trancada atrás de nós
Enquanto arremessarmos pedras contra a questão do sentido
E o mistério das nossas origens?
Para que serve o pirilampo,
A gota deslizando ao longo da folha verde,
ou até o sabonete escorregando em volta da banheira
Quando devíamos realmente estar
A bater tão forte quando podemos no mistério
E os vizinhos que se danem?
O bater sem parar no próprio Nada,
Alguns com as testas,
Outros com o malho dos sentidos, o queixo levantado da poesia.
Billy Collins
Em parte intrínseco ao grande olhar da infância,
Em parte um cálculo literário,
Estaremos apenas a evitar o nosso único e verdadeiro destino
Quando fazemos isso, desviando o nosso olhar
De Philip Larkin que espera por nós com um casaco de coveiro?
Os ramos despidos contra o céu
Não vão salvar salvar ninguém do vazio que os envolve,
nem o açucareiro ou a colher de açúcar em cima da mesa.
Então para quê preocuparmo-nos com o farol axadrezado?
Para quê perder tempo com o pardal,
Ou as flores selvagens ao longo da estrada
Quando todos devíamos estar sozinhos nos nossos quartos
A atirarmo-nos contra a parede da vida
E a parede oposta da morte,
Com a porta trancada atrás de nós
Enquanto arremessarmos pedras contra a questão do sentido
E o mistério das nossas origens?
Para que serve o pirilampo,
A gota deslizando ao longo da folha verde,
ou até o sabonete escorregando em volta da banheira
Quando devíamos realmente estar
A bater tão forte quando podemos no mistério
E os vizinhos que se danem?
O bater sem parar no próprio Nada,
Alguns com as testas,
Outros com o malho dos sentidos, o queixo levantado da poesia.
Billy Collins
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Em todas as ruas te encontro - Cesariny
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
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