quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Carpe Diem - Walt Whitman ??

Aproveita o dia,
Não deixes que o dia termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de te expressares,

que é quase um dever.

Não abandones a tua ânsia de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.

Porque, aconteça o que acontecer, a nossa essência continua intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e é oásis.
Derruba-nos, magoa-nos, ensina-nos,

converte-nos em protagonistas da nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra nós,

a poderosa obra continua: 

tu podes acrescentar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar,

porque só nos sonhos o Homem pode ser livre.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso.

Não te resignes, foge...

«Envio os meus gritos dos telhados deste mundo», afirma o poeta.

Valoriza a beleza das coisas simples. 

Pode-se fazer poesia bela, acerca das pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
porque não podemos remar contra nós mesmos:

isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico provocado por sentires a vida à tua frente.
Procura vivê-la intensamente e sem mediocridade.
Lembra-te que em ti está o futuro,

Por isso, encara esse teu dever com orgulho e sem medo.
Aprende com aqueles que te podem ensinar.

Com as experiências daqueles que nos precederam,

os nossos «Poetas Mortos»,

Eles ajudam-te a caminhar através da vida.

A sociedade de hoje somos nós:

os «Poetas Vivos»
Não permitas que a vida passe por ti

sem que a vivas...

Walter Whitman

 (1819 – 1892) jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

Ano Novo - Fernando Pessoa

ANO NOVO

Ficção de que começa alguma cousa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.

Curvas do rio escondem só movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.

Fernando Pessoa
[1-1-1923]
In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Ano Novo - Ferreira Gullard

ANO NOVO

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

domingo, 22 de setembro de 2019

A inutilidade da gramática - Nuno Júdice

A INUTILIDADE DA GRAMÁTICA

Tocando o fruto da gramática como se 
caísse de maduro, fazia com que a casca 
de verbos se descolasse da polpa e via
cair o sumo do pronome sobre o sujeito
da frase que, para ele, tinha o corpo 
da amada. Seguira aquele modelo segundo
o qual no princípio era o verbo; mas 
o sujeito sobrepunha-se ao verbo, e via
o seu rosto, que a luz da manhã
enchia de cor, sorrir-lhe, como se
aquela sequência de palavras tivesse 
outra vida para além da página. Mas
a árvore secara; e quando foi à procura
da raiz no campo estéril da sua memória,
nenhum pronome tinha corpo, e o verbo
que o animara reduzia-se a uma forma 
inactiva nos seus dedos manchados de tinta

Nuno Júdice, O fruto da gramática, D. Quixote, 2014 (setembro), p. 26

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O Poeta Psicossomático - Henrique Manuel Bento Fialho

O POETA PSICOSSOMÁTICO

   Há os poetas grandes, cimeiros, gigantescos, colossais, etc. Este de que vos falo era de tal forma titânico que precisava de um miradouro para poder contemplar a sua própria sombra. Era um poeta psicossomático.
   Certo dia penetrou a amante com o seu olhar mais de poeta psicossomático e disse-lhe: a tua saliva é o adubo da minha voz. Nesse mesmo instante, a boca transformou-se-lhe num vaso cheio de terra e cresceram-lhe plantas nos dentes.

Do livro “Call Center”

sábado, 31 de agosto de 2019

Ícaro - António Pedro Pita

Ícaro
sacudiu o pó
tratou cuidadosamente a ferida do joelho
reuniu os bocadinhos das suas
asas
colou-as com paciência
e pendurou-as na parede da sala
como recordação.

 António Pedro Pita

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Sobretudo as vozes - Silvina Rodrigues Lopes

Não vais dizer “Perdi os melhores dias”.
Aprendeste cedo que tudo é disperso.
Belo é estar aqui sem sufocar, neste
Abandono em que nada basta e nada falta.

Excerto