quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Primeiro a tua mão sobre o meu seio - Rosa Lobato de Faria

Primeiro  a tua mão sobre o meu seio.

Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.

Logo o roçar urgente do joelho

e o ventre mais à frente na maré.


É a onda do ombro que se instala.

É a linha do dorso que se inscreve.

A mão agora impõe, já não embala

mas o beijo é carícia, de tão leve.


O corpo roda: quer mais pele, mais quente.

A boca exige: quer mais sal, mais morno.

Já não há gesto que se não invente,

ímpeto que não ache um abandono.


Então já a maré subiu de vez.

É todo o mar que inunda a nossa cama.

Afogados de amor e de nudez

somos a maré alta de quem ama.


Por fim o sono calmo, que não é

senão ternura, intimidade, enleio:

o meu pé descansando no teu pé,

a tua mão dormindo no meu seio.


Rosa Lobato de Faria

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Uma demora lenta nas palavras - Rui Caeiro

“Uma demora lenta nas palavras

um calor bom na palma das mãos

uma maneira de gostar das pessoas e das coisas

sem tolher movimentos ou forçar as superfícies

beber aos golinhos o café a ferver

ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo

viver viver roçando as coisas ao de leve

sem poupar o veludo das mãos e do corpo

sem regatear o amor à flor da pele

olhar em torno de si perdida ou esperar o verão

e saber de um saber obscuro que o calor

todo o calor é de mais dentro que vem.”


Rui Caeiro, in "Livro de Afectos"

Venere coricata - Judite Teixeira (1922) - Ante o quadro de Tiziano Vicelli



Risca-se numa luz esbraseada 

sobre uma pele negra e rebrilhante 

a linha do seu corpo estonteante 

recortando a nudez estilizada..,


Cintilações de cor avermelhada, 

vem envolver-lhe a curva provocante! 

E na boca perversa de bacante, 

agoniza uma rosa ensanguentada!


Num amplexo quimérico cingida, 

revolve-se na luz enrubescida, 

em espasmos de luxúria, irrealizados...


Contorce-se num ritmo de desejos...

E a luz vai-lhe mordendo todo em beijos

o seio nu, de bicos enristados!


https://www.arlindo-correia.com/220705.html#Venere_Coricata

sábado, 2 de abril de 2022

O poema | Uma espécie de canção | William Carlos Williams (in Paterson)

 O POEMA

Tudo está
no som. Uma toada.
Raramente uma canção. Devia

ser uma canção – feita de
minúcias, vespas,
uma genciana – algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de uma dama – despertando
centrífuga, centrípeta.
.

THE POEM
It’s all in
the sound. A song.
Seldom a song. It should

be a song — made of
particulars, wasps,
a gentian — something
immediate, open

scissors, a lady’s
eyes — waking
centrifugal centripetal.


– William Carlos Williams. [nota e tradução de José Lino Grünewald]. Correio da Manhã. 24.11.1968.


UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO
Deixa a serpente espreitar sob
as suas ervas
e a escrita
ser de palavras lentas e rápidas, afiadas
para ferir, quietas no esperar,
insones.

– pela metáfora, reconciliar
o povo e as pedras.
Compor. (Não ideias
mas em coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que rompe
as rochas.
.

A SORT OF A SONG
Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.
— through metaphor to reconcile
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in things) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.


– William Carlos Williams. [nota e tradução de José Lino Grünewald]. Correio da Manhã. 24.11.1968.


sábado, 15 de janeiro de 2022

Um dia abres os olhos e descobres - António Franco Alexandre

"Um dia abres os olhos e descobres

os inexactos corpos misturados

e ficas sem saber de que maneira

este estranho centauro nomear.


Já te espantou o lume, quando viste

uma língua no sonho da saliva,

e te riste, de ser tão branco o sangue

que nas beiras da noite adormecia.


Agora é o teu corpo que procura

na orla da floresta, uma fogueira

onde acordar as mãos de forma humana,


e resolver enfim, mas para sempre,

se ser o sacro emblema do horror

ou o primeiro verso de um poema."


António Franco Alexandre

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

É possível - Manuel Alegre

 Porque é tempo de recomeços:


“É possível falar sem um nó na garganta

é possível amar sem que venham proibir

é possível correr sem que seja fugir.

Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão

é possível viver sem que seja de rastos.

Os teus olhos nasceram para olhar os astros

se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É

possível transformares em arma a tua mão.

É possível o amor. É possível o pão.

É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.

É possível viver sem fingir que se vive.

É possível ser homem.

É possível ser livre livre livre.”

Manuel Alegre

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Graças quero dar ao divino - Jorge Luís Borges

Graças quero dar ao divino

labirinto dos efeitos e das causas

pela diversidade das criaturas

que formam este singular universo,

pela razão, que não cessará de sonhar

com um plano do labirinto,

pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulsses,

pelo amor que nos deixa ver os outros

como os vê a divindade,

pelo firme diamante e a água solta,

pela álgebra, palácio de precisos cristais,

pelas místicas moedas de Angel Silésio,

por Schopenhauer

que decifrou talvez o universo,

pelo fulgor do fogo

que nenhum ser humano pode olhar sem um assombro antigo,

pelo acaju, o cedro e o sândalo,

pelo pão e o sal,

pelo mistério da rosa

que prodiga cor e não a vê,

por certas vésperas e dias de 1955,

pelos duros tropeiros que, na planície,

arreiam os animais e a alba,

pela manhã em Montevideu,

pela arte da amizade,

pelo último dia de Sócrates,

pelas palavras que foram ditas num crepúsculo

de uma cruz a outra cruz,

por aquele sonho do Islão que abarcou

mil noites e uma noite,

por aquele outro sonho do inferno,

da torre do fogo que purifica

e das esferas gloriosas,

por Swendenborg,

que conversava com os anjos nas ruas de Londres,

pelos rios secretos e imemoriais

que convergem em mim,

pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,

pela espada e a harpa dos saxões,

pelo mar que um deserto resplandecente

e uma cifra de coisas que não sabemos

e um epitáfio dos vikings,

pela música verbal da Inglaterra,

pela música verbal da Alemanha,

pelo ouro que reluz nos versos,

pelo épico Inverno,

pelo nome de um livro que não li: Gesta Dei per Francos,

por Verlaine, inocente como os pássaros,

pelo prisma de cristal e o peso de bronze,

pelas riscas do tigre,

pe1as altas torres de São Francisco e da ilha de Manhattan,

pela manhã no Texas,

por aquele sevilhano que redigiu a «Epístola Moral»

e cujo nome, como ele teria preferido, ignoramos,

por Séneca e Lucano, de Córdova,

que antes do espanhol escreveram

toda a literatura espanhola,

pelo geométrico e bizarro xadrez,

pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,

pelo odor medicinal dos eucaliptos,

pela linguagem, que pode simular a sabedoria,

pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,

pelo costume,

que nos repete e nos confirma como um espelho,

pela manhã, que nos depara a ilusão de um princípio,

pela noite, sua treva e sua astronomia,

pelo valor e a felicidade dos outros,

pela pátria, sentida nos jasmins

ou numa velha espada,

por Whitman e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,

pelo facto de que o poema é inesgotável

e se confunde com a soma das criaturas

e jamais chegará ao último verso

e varia segundo os homens,

por Frances Haslam, que pediu perdão a seus filhos

por morrer tão devagar,

pelos minutos que precedem o sonho,

pelo sonho e a morte,

esses dois tesouros ocultos,

pelos íntimos dons que não enumero,

pela música, misteriosa forma do tempo.


jorge luís borges