quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sai de ti - Juan Vicente Piqueras


 𝑺𝒂𝒊 𝒅𝒆 𝒕𝒊

(ou colecção de imperativos primavera-verão para o outono do teu desconcerto)


Não fujas do que sentes. Não te escondas

no que dizes. Não digas mentiras.

Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Não sofras por medo de sofrer mais.

Não mendigues jamais o que mereces.

Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.

Funda no fogo firme da sua fogueira

o teu lar, o teu ofício. E agradece ao ar

que entre e saia de ti. Sê a janela

do que vive. Olha com cuidado.

Há olhares que podem envenenar o mundo. 

Não deixes que apodreça o que sentes

Dentro de ti. Faz exame de consciência

de vez em quando mas nunca esqueças

que é possível que sejas inocente.

Abre o teu coração couraçado

à união do céu com o mar,

da luz com a sombra,

do canto dos grilos com o das cigarras.

Pinta de azul a alma. Troca

o que foste pelo que não serás.

Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.

Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.

Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.

As dos pés também, no mar, em marcha.

Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,

as tuas pegadas de amanhã, esperam-te, chamam por ti.

Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua

de sal. E sai de ti, do que pensas

de ti. Sai desse quarto

escuro onde escreves os poemas

que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.

Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.

Vira a página. Vê. Olha. Sê atento

e fica atento. Não esqueças o que vives.

Não esqueças o que acabas de viver.

Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai

em busca de uma voz nova, longínqua.

Não fujas do que sentes. Não permitas

que a vida se perca no vazio,

que a morte ao chegar encontre

já feito o seu trabalho. Olha o céu

como quem diz adeus,

como quem agradece.


Em “Instruções para Atravessar o Deserto”, poemas escolhidos de Juan Vicente Piqueras.

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